Resenha de “LÍNGUA – VIDAS EM PORTUGUÊS”

LÍNGUA – VIDAS EM PORTUGUÊS

DIREÇÃO: VICTOR LOPES

 “No fundo, não estás a viajar por lugares, mas sim por pessoas”

Mia Couto – Escritor moçambicano

“Não há uma língua portuguesa, há línguas em português”

José Saramago – Escritor português

         Língua – Vidas em Português é um documentário filmado em seis países (Brasil, Moçambique, Índia, Portugal, França e Japão), e conta com a presença de pessoas ilustres como José Saramago e de outras pessoas anônimas.

O mais interessante é perceber a memória que está armazenada na língua. Nos seis países visitados, quando os entrevistados são instados a se pronunciar e o fazem em português passam uma sensação fantástica de intimidade para o telespectador que também fala português. O cenário pode não ser conhecido, mas, a língua cria uma zona de conforto.

Para se ter uma dimensão dessa afirmativa, os olhos puxados de algumas personagens do documentário a priori afastam a possibilidade de semelhanças entre as culturas, no entanto, está na língua uma possibilidade de link entre o Japão e o Brasil. Os japoneses que falam português deram a sua contribuição à língua e sentem-se em casa em um bar brasileiro localizado em Tóquio (provavelmente se comunicam em um português oriental!). A música é brasileira, o ambiente nos é familiar, no entanto as pessoas são de um outro continente e de uma cultura bastante diversa da nossa.

Aparece um casal, francês, salvo engano, que fala português e que tem consciência de o que é moda e faz questão, provavelmente num grito rebelde por espaço, de estar fora dela. E argumentam que caso você se torne escravo da moda, qualquer dificuldade financeira, por exemplo, pode acabar com a sua vida. Pode deixá-lo sem identidade. Eles vivem a maneira de se comunicar, que vai além da fala e da escrita, com intensidade e dão importância ao estilo de vida e de se vestir como códigos sociais que são.

Há um outro momento bastante relevante que é o da apresentação de um ritual religioso em um dos países estrangeiros que são visitados. Por mais que a compreensão de palavra por palavra seja comprometida pela velocidade do sotaque, a emoção é muito clara e mora justamente nessa memória que a língua guarda tão bem. A comprovação está em um ritual religioso realizado em uma favela do Rio de Janeiro que, embora com um texto diferente, traz a mesma carga dramática e nos permite o mesmo envolvimento emocional.

São inúmeras passagens que mostram como a língua portuguesa sofre diferentes influências, cruza com as mais diversas histórias, culturas e não se esvazia jamais de sentido, isso é a própria comunicação. Não há a possibilidade de uma língua simplesmente absorver novas interpretações isoladas, contextualizadas apenas para um ou outro país. Ela pertence a um universo muito maior e representa a memória coletiva de um povo colonizador e um povo colonizado.

João Ubaldo Ribeiro analisa tecnicamente as alterações que o português brasileiro tem sofrido em função das dimensões geográficas do Brasil e das influências de outros povos. Não demonstra desconforto quanto à absorção de vocabulário, apenas quanto à importação de sintaxe, no entanto, conclui que é um processo natural e que caso não ocorresse todos ainda falaríamos latim.

O foco do documentário está na demonstração de que o português não é uma língua estática, assim como não são estáticas as sociedades que falam ou poderão vir a se comunicar através da última flor do Lácio.

Mariana Menezes

Fonte: o documentário e muitos textos…

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