O QUE É CERTO O QUE É ERRADO?

Os valores éticos e morais estão diretamente relacionados à convivência pacífica. Não há sociedade onde as pessoas sejam iguais e desejem somente as mesmas coisas e sonhem somente os mesmos sonhos. Partindo dessa premissa, faz-se fundamental que haja uma regulamentação, também tácita, da maneira como as pessoas devem se tratar.

Os meios de comunicação divulgam, insistentemente, modelos de beleza, de felicidade, de riqueza que perturbam o cidadão comum. Fazem com que ele se sinta obrigado a participar de mundos que muitas vezes não são o dele.

O resultado dessa massificação de comportamento é a inversão de valores. Crimes administrativos podem deixar de ser repudiados pela sociedade quando eles são cometidos por justa causa (!): casas milionárias, carros e bebidas caras, etc…

A inversão vai além. Fernandinho Beira-Mar é um bom exemplo. Ele se tornou um ídolo. Valente, desafiador, chefe do tráfico, temido pela polícia e exemplo para os adolescentes e crianças – principalmente para aqueles que se sentem à margem da sociedade.

A televisão pulula de personagens que fazem os heróis parecem uns coitados, que fazem os comuns, aqueles que não são filhos do Manoel Carlos (autor de novelas da Rede Globo), se revoltarem contra a sorte que tiveram. E que fazem aqueles que não nasceram altos, magros, brancos, de olhos claros e cabelos lisos sofrerem diante da própria imagem.

O fato é que a imprensa é feita para pessoas e que tem a obrigação de ajudar essas mesmas pessoas a se gostarem, a se respeitarem na suas muitas diversidades.

Não é justo relativizar valores em função do “sucesso” do Fernandinho Beira-Mar. Fazer parecer que o certo é sempre aquilo que significa alguma vantagem, mesmo que em detrimento de outros.

Os jornalistas tem que se sentir responsáveis, de fato, por tudo aquilo que publicam. Eles estão criando, o tempo todo, mocinhos e bandidos na cabeça de milhões de pessoas.

É possível, na divulgação de um fato, a análise crítica e moral do ocorrido. É possível tirar lições valorosas das experiências dos outros e é possível, principalmente, praticar um jornalismo responsável e formador.

Valores e ideais invertidos vendem mais!


A discussão sobre a comercialização do jornalismo parece não ter fim. Há vertentes que recebem com naturalidade a orientação de que uma matéria vai ser cortada pela metade, não vai sair naquela edição ou mesmo que vai mudar completamente o foco em função de um comercial que “entrou”. E há outras, menos tolerantes, que dizem não se vender e que repudiam a associação do jornalismo à tirania das cifras.

As pessoas ainda acreditam na imprensa. Ainda reproduzem o que a imprensa conta para elas todos os dias. Portanto, são essas mesmas pessoas que merecem o respeito dos meios de comunicação para que a relação, inclusive de consumo, se dê sem traumas.

A formação de uma sociedade deve ser buscada para além dos limites das escolas. Ela está na internet (páginas institucionais, sites de notícias, blogs e outros sites de relacionamentos), na televisão, no rádio, na conversa de um vizinho, do taxista, do jornalista com o barbeiro… Está em todos os lugares e o tempo todo. E é de responsabilidade da imprensa apresentar-se ética, comprometida com o bem da coletividade.

Não há bem comum, sem que os valores éticos e morais estejam estabelecidos como regras de boa convivência. A imprensa pode valorizar aquele que devolveu um dinheiro encontrado na praça; pode prestar serviços à comunidade com mais boa vontade e pode ter o ser humano na conta de personagem principal e não acessória ao dinheiro.

As crianças devem ter condições de encontrar leituras que as façam perceber que o dinheiro é sim importantíssimo na manutenção de suas vidas, mas, que o conceito de vida não se restringe aos atos de pagar contas ou adquirir coisas. Que vida, de verdade mesmo, pede para que se passe tempo com as pessoas de quem se gosta, que se faça boas ações para sentir paz, que se preocupe com o próximo em troca de estar mais perto de Deus.

Os valores morais são aqueles que pertencem a um código que não precisa ter forma expressa e que é norteado pela luta diária por uma convivência feliz com o outro. É importante, sempre que possível, colocar-se no lugar do outro, tentar sentir o que ele sente, tentar ver o que ele vê e antes de julgar, tentar respeitá-lo. Simplesmente isso: respeitar.

Assim, certamente matérias de sentidos ambíguos deixariam de ser publicadas. E deixariam de ser publicadas também matérias que punem, antes da Justiça, pais de família; que debocham de filhas flagradas em situações vexameiras…

Ninguém faz jornal para não vender, isso é fato. Mas vender notícias que estimulem o descaso com o ser humano e que incitem relações turbulentas, violentes e sem ética pode significar um preço alto demais – mais alto até que o preço cobrado pelo comercial que “entrou”.

Mariana Menezes

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