Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera

         Eu sempre morei neste templo flutuante. Pelo menos, desde que comecei a juntar lembranças, tenho certeza de que não existiu outro lugar. Sei exatamente como aquela imensidão de água e de árvores (plano geral) mexem com o interior das pessoas. A minha vida é uma narrativa simples, sem pontos muito altos ou muito baixos.

        Minha companhia era o Mestre Oh. Ele era sábio, sereno, mas, não era afetuoso. Francamente eu nem sei o que ele sentia por mim. Nem sei porque ele insistia em me ensinar tantas coisas que eu nem sabia se queria aprender. Mas, como não me restavam outras opções, acompanhava atento a explicação de quais são as ervas que deveria pegar e quais são as que fazem mal. Ah, e como devo tratar os animais também foi uma lição preciosa e que aprendi a duras penas.

        Uma das minhas brincadeiras preferidas – claro, quando o mestre Oh não estava por perto – era amarrar pedras ao corpo de animaizinhos como cobra, sapo e peixe e acompanhar o sofrimento deles para continuar o curso de suas vidas. Parecia impossível e era. Só pude perceber isso quando, com uma pedra amarrada nas costas, tive que chegar à ilha e soltar os bichinhos que eu havia perturbado. O mestre estava certo, a dor que eles sentiram por minha culpa, passou a morar em meu coração. O peixinho e a cobra não resistiram. Consegui salvar o sapo.

        A vida é uma seqüência de evoluções e provações a que somos submetidos o tempo inteiro. E não tem como ser diferente e não deve ser. No verão, quando completei 17 anos, uma mãe trouxe a sua filha para o templo. A menina estava doente, acho que a alma dela estava doente. Ela despertou instintos que eu não sabia que moravam dentro de mim. Quebrou a minha paz. O mestre sabia de tudo. Sempre soube. Ele previa que eu teria que passar por mais essa etapa da vida. Ninguém faz escolhas sem saber o que foi abandonado.

        Foi naquele verão que vivi a minha primeira relação sexual, o meu primeiro amor. Abri mão de tudo. Abandonei o mestre, o nosso templo, os nossos estudos e a busca pela espiritualização para viver ao lado daquela mulher. Ela não era boa ou má, nós não erramos ou acertamos, só vivemos algo natural, algo nosso. Mais uma experiência pela qual eu tinha que passar.

        Mudamos para a cidade e passamos dias muito difíceis lá. Mais uma vez percebi que moram em mim sentimentos que eu ainda não conheço. Mais uma vez tive a prova que ainda sei pouco sobre mim. Eu sentia um ciúme desesperado dela e isso me adoecia. Eu a matei. Eu preferi vê-la morta, a correr o risco de vê-la com outro homem. A polícia estava me perseguindo, meu retrato e nome estavam nos jornais.

        Atordoado, perdido, o único caminho que conseguia fazer sem grandes esforços era o que me levava de volta ao templo, de volta ao mestre. Ele me recebeu e mais uma vez parecia saber que aquilo ia acontecer. Que aquele homem capaz de matar morava dentro de mim.

        Logo depois da minha chegada, os policiais também entraram no templo. Quando eles chegaram, me surpreenderam em pleno exercício espiritual. O mestre fez com que eu entalhasse na madeira do chão vários escritos e fez com que eu os pintasse também. Os policiais esperaram por dois que eu terminasse aquele trabalho que marcaria o fim do meu ciclo cármico e o início da minha iluminação.

        O mestre havia conseguido. Ele fez com que eu, seu aprendiz, entendesse várias coisas sobre mim e sobre as etapas que são naturais na vida de qualquer pessoa e, principalmente, sobre os erros que cometi em busca de como lidar com o fato de ser humano.

        Assim que fui levado, ele se purificou. Libertou o seu espírito para que pudesse receber novas missões. A vida tem um sentido, o de passar por ela, sem apegos.

        Eu saí da prisão e já estava mais maduro, mais consciente de mim mesmo. Voltei para o templo ciente de que teria que recomeçar, ou melhor, que teria que dar seqüência a minha história. Abri mais uma vez o portão que me levaria ao templo. Arrumei o que pude, senti a presença do mestre.

        Com uma pedra amarrada ao meu corpo, a que simboliza as minhas dores, subi a montanha. A peregrinação seria importante para elevar o meu espírito.

        Quando voltei, encontrei uma criança que havia sido deixada para que eu a passasse os ensinamentos budistas. Fui recebido como um mestre pelo meu pequeno aprendiz. A certeza disso veio no dia seguinte. A mãe daquela criança sofreu um acidente no gelo que se fez na superfície do lago e no local onde ela morreu, emergiu um Buda. Buda se manifestou.

        As portas e portões me lembravam o tempo inteiro que o mundo é espaço, é passagem. A passagem foi feita pelo mestre Oh que, embora reconhecesse que a matéria é nada, cuidou de seu corpo enquanto ele era moradia de sua alma.

        E como se a minha vida fosse uma história lúdica, abençoada pela poesia que existe nas imagens no entorno do templo, fui escrever as novas páginas da minha vida. Páginas essas que são somente de minha responsabilidade, só eu posso escrevê-las. A primavera chegou novamente. Para aqueles que prestaram atenção, foi na primavera que tudo começou (intriga de predestinação).

Assinado: Seo

Resenha: Mariana Menezes

Fonte: o filme e muitos textos…

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