RESENHA DO FILME “UMA ONDA NO AR”, DE HELVÉCIO RATTON

Os amigos Jorge, Zequiel, Brou e Roque decidem montar uma rádio em uma favela de Belo Horizonte, na década de 80. O objetivo da rádio era difundir a cultura do morro, os talentos que moram na favela e também, conversar com as pessoas da comunidade sobre assuntos pertencentes ao seu universo, ser um instrumento de transformação social.

Jorge é filho de uma faxineira de uma escola de classe média alta de Belo Horizonte. Graças a esse fato estudou em uma boa escola particular até o 3° ano e lá foi vítima de descriminação racial e de classe. Zequiel é técnico em eletrônica e se tornou o responsável pela construção do transmissor que levaria a voz do morro para todos. Brou era filho de um dono-de-bar e era um artista. Fazia poesia e música com qualquer pauta, morreu com um tiro nas costas disparado por um desafeto de Roque. Roque tornou-se um traficante. Dizia não ter futuro e que seu destino era viver bem (leia-se com luxo) enquanto vivesse. Dos quatro apenas Roque traficava e usava droga. Morreu defendendo a “boca” onde trabalhava.

Jorge é um homem forte, idealista, ético e um líder comunitário nato. Grande comunicador conseguia dialogar com a sua comunidade sem agredi-la, sem se desfazer dela e ao mesmo tempo alertando quanto aos perigos que a cercava. Conhecia profundamente a formação histórica e social de onde morava e os costumes daquele lugar.

A mídia comunitária não é apenas um espaço para reivindicações, prova disso é o prêmio concedido pelas Nações Unidas à rádio Favela, pelo trabalho de educação e prevenção ao uso e tráfico de drogas. Jorge lia cartas de condenados para desfazer a idéia de glamour que o tráfico poderia causar nas crianças e adolescentes. Chamava a atenção dos governantes quanto à seriedade de ampliar o ensino formal no país e abortar as políticas de armamento das polícias que acabam por se tornar inimigas das comunidades.

O conceito de comunidade está diretamente ligado à orientação afetiva, à vontade natural ou essencial de se conviver. A primeira comunidade a que fazemos parte é a família. Na sequência, essa comunidade amplia seus limites e se baseia em um habitat comum e que, por consequência, abriga religiões e outras mesmas metas. Jorge era aceito, em um acordo tácito, como o representante da comunidade da favela onde morava. Era porta-voz daquele povo, da linguagem daquele povo e das pautas pelas quais eles se interessavam.

  A rádio pirata entrava no ar todos os dias no horário da “Voz do Brasil”. Os assuntos abordados naquele programa eram muito distantes deles e enquanto alguns tomavam o “café com o Presidente”, Jorge alertava sobre a presença da polícia subindo a “sua quebrada” e do perigo de troca de tiros, do sumiço do papagaio de uma vizinha e da dor de dente de um outro morador.

            Além da comunicação dentro da favela, Jorge se preocupava também em falar com as pessoas do asfalto (era como ele se referia à cidade). Pedia que os moradores da favela fossem tratados com dignidade, sem preconceitos e com respeito. Pedia mais, clamava por geração de emprego e pela não-violência.

            O locutor da Rádio Favela foi preso várias vezes e solto na mesma proporção. A rádio era clandestina até que, em 2000 recebeu autorização para funcionar e tornou-se a Rádio Educativa Favela. Ficção e realidade unidas para demonstrar a força de uma comunidade organizada, que fala uma só voz, discute seus problemas, hierarquiza suas prioridades e se preocupa com a formação de seu povo.

Mariana Menezes

Fonte: O filme e muitos textos…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: